Grande surpresa no anúncio desta
quinta-feira. O músico Boby Dylan, o primeiro a
receber o Nobel da Literatura, foi
distinguido "por ter criado novas formas
de expressão poética no quadro da
grande tradição da música americana"
É o primeiro norte-americano a
ganhar o prémio desde Toni Morrison,
em 1993. Mais relevante, porém, é o
facto de, depois de vários anos em que
o seu nome foi avançado como
possível vencedor, a atribuição do
Nobel a Dylan servir como legimitação
literária da canção popular, de que o
cantor de Blowing in the wind é um dos
maiores representantes. Não por
acaso, Sara Danius, Secretária
Permanente da Academia Sueca,
reconhecendo que a distinção de
alguém cujo ofício é o das canções
pode ser controverso, manifestou a
esperança de a Academia não ser
criticada pela escolha. " The times they
are-a changing, perhaps " ("Talvez os
tempos estejam a mudar"), afirmou,
citando o título de uma das mais
famosas canções de Dylan.
Nascido em Dulluth, no Minnesota, a
24 de Maio de 1941, Bob Dylan foi
uma figura fulcral na revolução
musical e cultural da década de 1960.
Partindo da tradição folk, blues e
country americanas, mas
transportando-a para uma nova era de
convulsão política e agitação social,
levou a palavra, como nunca antes,
para o centro da criação pop. Assinou
37 álbuns desde a estreia homónima
em 1962. Fallen Angels, editado em
2016, é o último até ao momento.
Tecnicamente, esta não é a primeira
vez que um músico é distinguido com
o Nobel da Literatura. Em 1913, o
indiano Rabindranath Tagore recebeu
a distinção. Tagore, que, curiosamente,
morreu no ano do nascimento de
Dylan, foi não só um escritor
destacado na literatura indiana,
enquanto romancista, poeta e
dramaturgo, mas também um pintor
de reconhecido mérito e um
compositor que assinou mais de duas
mil canções nos seus 80 anos de vida.
Bob Dylan, porém, é o primeiro Nobel
da Literatura cujo ofício se centra
num campo exterior ao literário. Isso
explicará não só a surpresa com que o
anúncio do prémio foi recebida, mas
também a polémica que se
desencadeou, com várias vozes a
questionarem a justiça da distinção.
Poucos terão sido mais cáusticos que o
romancista escocês Irvine Welsh. "Sou
fã de Dylan, mas isto é um prémio
nostálgico mal amanhado, arrancado
das próstatas rançosas de hippies senis
e gaguejantes", escreveu na sua conta
de Twitter. Salman Rushdie não podia
estar mais em desacordo. Igualmente
no twitter, defendeu o prémio em três
frases: "De Orfeu a Faiz, canção e
poesia têm estado intimamemente
ligados. Dylan é o brilhante herdeiro
da tradição dos bardos. Uma grande
escolha". Entre uma posição e outra,
não falta naturalmente o humor. O
escritor americano Jason Pinter, por
exemplo, tem uma sugestão a fazer:
"Se o Bob Dylan pode ganhar o Prémio
Nobel da Literatura, então julgo que
Stephen King dever ser eleito para o
Rock'n'Roll Hall of Fame".
O nome a que chegaram os dezoito
membros da Academia Sueca foi,
porém, consensual. E, apesar de
inusitado na história do Nobel, estará
de acordo com os critérios vagos,
considera a Academia, deixados em
testamento por Alfred Nobel para sua
atribuição. "Na verdade, a história do
prémio literário surge como uma série
de tentativas de interpretar um
testamento impreciso na sua
formulação", lê-se no site da
Academia. Na nota biográfica emitida
pela instituição, acentua-se que as
letras de Dylan "têm sido
continuamente publicadas em novas
edições, sob o título Lyrics. Enquanto
artista, é extraordinariamente
versátil; tendo estado activo enquanto
pintor, actor e guionista". A nota
despede-se apontando que "a sua
influência na música contemporânea é
profunda, e ele é alvo de um fluxo
contínuo de literatura secundária".
Inicialmente próximo da tradição da
canção de protesto de Woody Guthrie,
algo aprimorado nos clubes folk
extremamente politizados de
Greenwich Village, Nova Iorque, Bob
Dylan recusou ser preso no altar de
"voz de uma geração" a que foi
erguido. A sua música e as suas letras,
inicialmente primorosos retratos
sociais e denúncia política arrancados
à história das canções da velha
América e à realidade nas ruas que o
envolviam, foram ganhando uma nova
dimensão à medida que se virava para
si próprio e procurava uma expressão
indidivual em que a liberdade poética
surgia torrencial, surreal,
revolucionária tendo em conta o que
era habitual até então na música
popular urbana - exemplo magistral
disso é a sua trilogia clássica da
década de 1960, formada por Bringing
It All Back Home (1965), Highway 61
Revisited (1965) e Blonde on Blonde
(1966). O final da década traria nova
inflexão de rumo, com o mergulho nas
raízes e nas mitologias da música
americana selado nas famosas
Basement Tapes gravadas com a The
Band em 1967 e editadas em 1975 ou,
simbolicamente, no dueto com Johnny
Cash, em Girl from the north country ,
que abre Nashville Skyline (1969).
